Poetisa Leidiana S. Silva

Poetisa Leidiana S. Silva
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

VIDA DIFÍCIL

Minha infância foi sofrida
Tive uma vida judiada
De tudo já fiz um pouco
Pois sempre fui esforçada

Já colhi muito café
E já coei café na lata
Já carpi muito capim
E já plantei até batata

Cavei cova pra mandioca
Assim também como ralei
E para fazer a farinha
Mandioca eu prensei

Com a goma da mandioca
Fiz farinha e beiju
Já comi carne de onça
E também carne de tatu

Eu já comi jacaré
Também já comi jia
Já pesquei tarde da noite
Para pode comer de dia

Quando eu era pequena
Me recordo com alegria
Por não ter uma piscina
Mergulhava em bacia

Todo mundo andava a pé
E não via dificuldade
Devagar nós ia andando
E atravessava a cidade

Andar descalço era normal
Aliás era mania
E não pegava tais doenças
Que se pega hoje em dia

Já andei muito descalço
Por não ter o que calçar
E remendei muito chinelo
Para descalço não ficar

Remendava com arame
Isso era quando achava
Quando não tinha arame
Um preguinho eu fixava

Andava tanto de pé no chão
Que era até engraçado
Quando calçava um sapato
O pé ficava machucado

A famosa conga
Era o sapato popular
Pois tanto homem ou mulher
Uma conga poderia usar

A comida era simples
E também muito pesada
Tipo se comesse hoje
Ficaria empapuçada

Comia em cuia e bacia
A colher era a mão
E o rango mais popular
Era farinha com feijão

Uma coisa engraçada
Era a nossa mistura
Geralmente carne de boi
Daquela cheia de gordura

Todo mundo bem cedinho
Já estava acordado
O fogão era a lenha
E o banho era gelado

O café era às seis
O almoço meio dia
Janta às dezoito horas
E logo mais todos dormia

Sem pia na cozinha
Lavava louça no quintal
Dentro de balde ou bacia
Em cima de um girau

Nessa vida passei fome
Já dormir no realento
Até mesmo desejei
Me mudar para um convento

Pois sem ter onde dormir
E até mesmo o que comer
Tentei tirar a minha vida
Para deixar de viver

No meu tempo de criança
A vida não me favoreceu
Então sou aquele tipo
Que toda vida só sofreu

Lembra que a ninha cama
Parece até brincadeira
Quando eu deitava nela
Só sentia a madeira

Cama forrada de papelão
Com um colchão artesanal
Com enchimento improvisado
Uma humilhação total

Com uma seria alergia
Eu vivia a me coçar
Pois as folhas do colchão
Fazia minha pele irritar

Sem falar de vários espirros
E de muita falta de ar
Eu sentia continuamente
A minha saúde fragilizar

Mas era uma realidade
Que eu tinha que viver
Afinal não era só eu
Que vivia a padecer

A maioria das pessoas
Em situação ruim
Também fazia o colchão
E enchia igual a mim

Colchão artesanal
Com enchimento de capim
E outras folhas secas
Ou pano velho: Enfim!

Quem tinha bananeira
Se dava era muito bem
Pois com folhas de banana
Dava para encher também

Hoje não é muito diferente
Morei dez anos numa favela
E enfiam consegui uma casa
Uma casinha bem singela

A não ser a casa própria
Nada mais em mim mudou
Pois o sonho da mobília
Ainda não concretizou

Não tenho ainda uma bela cama
Muito menos um belo colchão
E mesmo assim dou graça ao céu
Pois pelo menos não durmo no chão

Porcaria de sofrimento
Insiste em ficar do meu lado
Mesmo estando no presente
Meu sofrimento é do passado

Pois nunca acabou
Nunca, nunca teve um fim
Se alguém souber onde tem sorte
Por favor avise-me

Pois minha vida foi sofrida
E aliás ainda é...
Nunca tive muita sorte
Só que não perdi a fé

Penso em "quem sabe um dia"
A minha vida possa mudar
E enfim a sorte me encontre
Me fazendo prosperar

Só que... até lá...
A minha vida vou levando
Às vezes meio que sorrindo
E às vezes só chorando

Continuo padecendo
Mas fazer o que?
O que você tem que passar;
Ninguém passa por você!

Pelo menos atualmente
Não tenho mais que carpir
Não passo fome como antes
E também tenho onde dormir

Isso já é um bom começo
Sei que a vida vai melhorar
O que tenho que fazer
Não tem jeito; "é só esperar!"

Mas acredito em mudança
Acredito no destino
Tão certo como o brilhinho
No olho de um menino

Ainda resta esperança
É só acreditar...
E como eu já disse antes
O que resta é esperar

Minha infância foi difícil
Mas meu coração me diz
Que sofria para caramba
Mas no fundo era feliz

Pois nessa atualidade
As coisas só se complicou
Pois os que já era podre
Pra piorar se endividou

Pois o que ganha atualmente
Com a tal da inflação
Gasta tudo com impostos
E não lhe sobra um tostão

Sem alimento adequado
A saúde vai estragando
E depois que adoece
As coisa só vai piorando

Pois depois que adoece
Não pode ao menos trabalhar
E para ficar ainda mais pior
Não consegue encostar

E se ainda for de idade
Isso é um fato que entristece
Pois estando velho e doente
Ainda mais ele padece

Por isso trinta anos atrás
Era sim bom de viver
Só não enxerga quem não quer
Pois isso até cego ver.

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